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20/01/2021

Os dias em retalhos

Ainda guardo as lembranças de quando os dias eram tranquilos, embora essas recordações estejam escondidas em um baú inalcançável. Apesar da escuridão lá dentro, a minha mente ainda divaga pelas caminhadas matinais a passos lentos, observando cada detalhe da paisagem ao redor. Os dias percebiam a minha presença, quieta, observadora e sorridente. Hoje, ao contrário, estou desaparecendo, perdendo a cor vivaz da minha existência. Mas ainda que os dias estejam nublados, conservo (ou tento) a esperança de que tudo se torne vívido novamente.

Descrevo para mim mesma as lembranças mais ternas e cultivo os sentimentos daqueles tempos que não voltam mais, perdidos em páginas soltas de um livro caído atrás da estante. Sei que posso escrever novas páginas, palavras que ainda não foram escritas por mim em ocasiões passadas, mas minhas mãos se recusam, se fecham à nova caneta que comprei para o ano novo, para as segundas chances que nos prometem quando um novo ciclo começa. Neste ano, porém, não consigo dar uma nova chance a mim, afinal, quantas eu já perdi? Por desgosto e por acreditar que no fim não valeria a pena tamanho esforço.

Sonho em acordar pela manhã, às 6h, e ver a ansiedade partir, junto aos incontáveis dilemas que habitam minha mente. Não reclamaria em ajudar a carregar as malas para longe, por mais pesadas que elas pudessem ser, eles estariam, enfim, me dando adeus. Sei que é apenas um sonho, pois  meu corpo deu abrigo para as minhas perturbações; a cama é confortável e há cobertores nas gavetas do guarda-roupa. Penso em me mudar, ir para uma casa menor para que nada possa ocupar os cantos das paredes. É difícil sair, eu sei, mas um dia, em uma segunda-feira qualquer, eu desapareço.

02/01/2021

O eu lírico

Foto: @peixoto_isa
@peixoto_isa


Há sensibilidade no que eu escrevo. As palavras transmitem o que eu sinto... e como eu sinto! Tudo à minha volta obtém um olhar diferente, dedico parte do meu tempo para refletir e, talvez, escrever sobre elas: as flores nas calçadas, o céu nublado mesmo em um dia quente e as pessoas ao redor. A cada lugar, a cada passo, as palavras invadem a minha mente e tudo vira poesia.

Durante muito tempo, tentei, em vão, reprimir a minha sensibilidade exagerada, mas isso só contribuiu para um acúmulo de pensamentos, reflexões intermináveis que se afogam na minha mente, no mar de incertezas que há em mim. Ao longo de vários anos, criei e deletei inúmeros blogs, escrevi em cadernos e os joguei fora, na esperança de que o sentir exacerbado fosse embora junto a eles, sumisse em meio aos papéis rasgados e as palavras, agora, silenciosas.

Fora tudo um engano.

No fundo eu sabia que o tempo é incapaz de deixar as palavras partirem, elas são as únicas companheiras do meu sentimentalismo, da necessidade de dizer a elas sobre a tristeza que me rasga o peito e a felicidade atrasada. Sentada, mais uma vez, olhando para o teto, percebo que escrever é uma necessidade, há uma urgência em deixar os sentimentos em um papel em branco, rabiscá-lo até não haver mais espaço; espaço para a dor, para a infelicidade insistente.Tardou, já é noite, outro tempo, outro ano, e só agora compreendo que sou feita de palavras.  


01/08/2020

Rio de lágrimas: A tristeza derramada

 

''As lágrimas que não se choram esperam em lagos pequenos? Ou serão rios invisíveis que correm em direção à tristeza?''  — Pablo Neruda

 

 

De onde nasci, não podíamos jogar fora qualquer resquício que pertencessem a nós, eles eram como receptáculos sagrados, como as fotografias que guardamos a vida inteira para lembrarmos do passado. O guarda-roupa do meu quarto era tomado por pequenos frascos, e neles eram armazenadas todas as lágrimas que um dia transbordaram de mim. Minha mãe sempre me dizia ''Nunca deixe que suas lágrimas escapem de você, elas representam a sua existência. Guarde-as e certifique-se que elas nunca farão parte do rio da desesperança.''
Durante muito tempo, não entendi o significado deste rio, nunca cheguei sequer a vê-lo. Só fui entendê-lo de fato,  quando a velhice chegou à mim, e os meus olhos ressecaram por falta d'água. O rio da desesperança era, portanto, as lágrimas que não se choram, que ficam reprimidas em nosso interior. Elas não são belas como as que guardei a minha vida inteira, tampouco são vistas a olho nu; é preciso a sabedoria de um coração frio, já ressecado pelo tempo. É só com o peso da idade que os rios invisíveis aparecem a nós, meros receptáculos de lágrimas e tristeza.

17/11/2019

Quando falávamos sobre livros


Há 3 anos, falar sobre livros era prazeroso e fácil para mim, era como sentar na varanda e conversar por horas com o meu melhor amigo, sem notar os ponteiros do relógio girando. Eu lia de forma leve e natural, como se ler cada palavra fosse tomar um chá no final da tarde, às 17h. Percorria as estantes da biblioteca em busca de qualquer história que tivesse a ousadia de me prender a ela e, incrivelmente, eu sempre encontrava a obra perfeita para qualquer ocasião.

Neste momento, porém, uma das piores sensações é tomar o chá das 17h, ele fere, queima a minha garganta, e não há nada que eu possa fazer para tentar esfriá-lo. As estantes da biblioteca viraram labirintos indecifráveis, como se os títulos tivessem se embaralhado propositalmente.  Ler já não tem o mesmo sabor, tampouco a mesma sensação libertadora. Se antes era como um eterno primeiro encontro com as palavras, atualmente é uma relação de anos que chegou ao fim sem maiores explicações.

Gostaria de poder prosear novamente com as palavras enclausuradas nos livros, expor o que temos a dizer uma a outra, tentando entender verdadeiramente a onda de magoas que nos devastou... É uma pena não poder prever o amanhã, assim eu poderia saber se a minha relação com as palavras voltará a ser como era em um passado longínquo.


10/11/2019

O mar em mim

Muitas vezes, senti o ímpeto de escrever. Apenas escrever. Talvez poemas, resenhas de livros ou um amontoado de palavras. Comecei no Tumblr, mudei para o Blogger, mas já deletei todos os blogs que ousei criar até agora. Refletindo sobre, nessa noite de domingo, penso que seria melhor não ter deletado nenhum deles; todos eles tinham um pedaço, um pequeno fragmento do meu eu.

Por muito tempo, imaginei que pudesse simplesmente ignorar as minhas ideias e o meu anseio por transformar os meus devaneios em palavras, porém isso só me fez ficar sobrecarregada de reflexões, de pensamentos intermináveis que foram se afogando, pouco a pouco, no meu interior, no mar de incertezas que há em mim. 

Já faz anos que eu não escrevo sobre o que sinto, sobre o ar que eu respiro, sobre as flores que admiro e sobre o amor; o amor que me trouxe até este novo e pequeno espaço virtual, criado para compartilhar sentimentos e ideias. Já é noite, o clima está quente, e o ventilador ligado. Escrevo nesse dia, nesse tempo, não porque planejei, mas pelo querer, pela necessidade de lançar as palavras ao vento, ao desconhecido. Não há como saber quem irá ler e de fato entender o que é sofrer por palavras. A minha motivação para a escrita não vem pela certeza ou incerteza que alguém irá ler; e sim, pela emergência de me expressar, dizer fantasias para o vazio e me sentir completa.

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