23/03/2026

Sobrevivência

Eu costumava gostar das manhãs ensolaradas. Acordar às 6h, ver o dia ainda no seu início e poder apreciar o silêncio de uma casa ainda adormecida. Às vezes, voltava a dormir, outras, lia algumas páginas do livro da cabeceira, e agradecia por ainda estar cedo e silencioso. O café era tomado em pequenos goles, apreciado entre uma pausa e outra; entre conversas delongadas e diálogos animados pelo dia quente lá fora. Os dias eram vividos, sentidos e eternizados. Eu habitava em um olhar afeiçoado pela vida, pelos detalhes e por cada pequenez da natureza. 

Ainda tento me recordar em que momento isso tudo foi perdido, em como deixei escapar o apreço por estar viva e viver plenamente. Ainda busco no fundo da memória, as lembranças daquele tempo, não muito distante, mas incapaz de voltar neste momento. Há esperança, há o sonho de que as memórias se tornem reais novamente, e toda a escuridão desapareça junto ao vazio que consome a minha mente. Presa nesse quarto escuro e bagunçado, fantasio encontrar, em meio a poeira, o que um dia me deixava de pé, disposta a caminhar sobre a mobília quebrada. Mas a exaustão ainda se faz presente, e o que poderia se tornar esperança, são apenas vestígios de uma tristeza persistente...


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